
Eles eram total e completamente diferentes. Ela era loira, ele, moreno. Os olhos dele eram da cor exata do céu, os dela, escuros como um abismo. Ele ia para a academia quase todos os dias, ela não se preocupava tanto assim. Ele curtia rock, ela, músicas calmas. Ele gostava de bandas famosas, ela amava as desconhecidas. Ele entendia tudo sobre futebol, ela não se importava. Ele gostava de sair, ela era caseira. Ele era muito bom em matemática, ela amava história. Ele gostava de terror, ela, de comédia. Ele tinha vários amigos, ela contava os seus nos dedos de uma mão. Ele tinha mãos fortes, ela tinha mãos frágeis. Ele emanava independência, ela inspirava cuidados. Ele gostava do sol, ela da água. Ele gostava de tocar violão, ela preferia jogar videogames. Ele pagava pra não ler, ela lia tudo que chegava em suas mãos. Ele amava dançar, ela preferia apenas ouvir a música. Ele gostava de multidões, ela preferia ficar sozinha. Ele gostava de sair, ela adorava o aconchego de seu quarto. Ele era popular, ela era tímida e fechada. Ele era o calor, ela era o gelo. Ela era o branco, ele era o preto. Eles eram diferentes, muito, muito diferentes. Totalmente opostos. Talvez, apenas por isso, se completavam.

Eu não deveria sentir sua falta. Eu deveria te esquecer por você ter me deixado como última opção enquanto, pra mim, você sempre foi a primeira. Eu deveria te apagar da minha vida por me fazer sofrer do jeito que você fez e ainda por se entranhar na minha mente. Eu deveria te odiar. Te odiar pelo jeito que você me fazia sentir especial e depois simplesmente ir embora, te odiar pelo jeito que você me fazia sorrir, por me fazer pensar que o “nós” poderia dar certo. Te odiar por me fazer de idiota, me procurando só quando queria alguma coisa. E eu te dei tudo. Te doei tempo, carinho, segredos e confissões… e o pior: te doei meu amor e meu coração. E o que você fez? Foi embora. Fácil assim. Nem olhou pra trás. Sem ressentimento, culpa ou algo que alguém que tenha coração sinta. Eu devia te odiar, eu devia te esquecer… eu não devia sentir sua falta. Mas eu sinto.

Sorrisos idiotas. Lembranças. Olhar e abaixar a cabeça. Pensar naquela pessoa o dia inteiro. Ouvir músicas pensando nesta pessoa. Sentir seu perfume do nada. Gravar cada conversa. Gravar cada palavra. Ciúmes. Você três vezes mais idiota. Não presta atenção em quase nada. Planeja conversas. Planeja ações. Antes de dormir, pensa na pessoa. Perde seu olhar nela. Olha pra ela a cada cinco minutos. Escreve o nome dela no caderno, muitas vezes sem perceber. Desenha um coração pensando nela. Escreve coisas para ela, sem ela saber. Tenta puxar assunto. Sempre ri das piadas dela, mesmo quando elas não têm graça. É, colega. Se ferrou, você está apaixonado.

Só queria que alguém me explicasse o porquê de eu não conseguir tirar você da minha cabeça. Só isso.

E, pra variar, seus olhares se encontraram. Famintos, sedentos por compreensão, por carinho. Famintos um pelo outro. Esperando algum movimento, esperando alguma reação. E - como sempre - nada aconteceu. O orgulho impedia mais que isso - uma conversa, um sorriso - mas nem este conseguia disfarçar a saudade que seus olhares demonstravam. Eles tentavam não se encontrar, mas alguma coisa lá dentro era mais forte. Alguma coisa chamava a atenção, alguma coisa que não podia ser controlada. Carinho? Desejo? Paixão? Amor? Isso tudo virou saudade. Isso tudo ficou no passado. Ou, pelo menos, assim era para ter acontecido. Mas não era o que os olhares falavam, não era o que os olhares demonstravam. Eles precisavam ser compreendidos novamente, eles precisavam se encontrar um no outro. E era disso que os dois sentiam raiva, eles não conseguiam se esquecer. No meio da multidão, eles se encontravam, e, quando estavam sozinhos, se perdiam para encontrar um ao outro. Olhar para o horizonte… que nada, os olhos se perdiam e quem enxergava era a mente. Enxergava outro par de olhos, outro sorriso, outra pessoa… Aliás, enxergava aquela pessoa. A única pessoa dona de seu olhar. Dona de seu amor. E como se nada tivesse acontecido e como em uma casual troca de olhares, os dois se afastaram e seguiram suas vidas. Cada um olhando para o nada, para o horizonte, e pensando em apenas uma coisa. Pensando em uma pessoa.
Que seja quente, que seja frio. Que seja salgado, que seja doce. Que te faça sorrir, que te faça chorar. Que dê vontade de cantar. Que seja alegre, que seja triste. Que seja maluco e que seja sério. Que seja engraçado, que seja idiota. Que seja levemente irritante. Que te deixe bobo, que dê saudade. Que também seja uma amizade. Que seja novo, que dure muito. Que isso signifique o teu mundo. Que seja tudo, que seja único. Que seja incomparável, que seja inabalável. Que seja inesquecível, que seja inatingível. Que seja verdadeiro. Que seja amor.


Felicidade é uma coisa tão relativa (…). A minha, por exemplo, é você.

(…) e é uma droga porque sempre que me falam de amor, a primeira coisa que me vem a cabeça é você.
